História de profissional · Portugal · Logística

"A única mulher
nos empilhadores.
Ao fim de três meses já não era história."

Ana Sousa (28) é do Porto. Há dois anos começou na Holanda como picker; hoje conduz reach truck num centro de distribuição em Helmond — e ensina os novos colegas no terreno.

Local de nascimentoPorto, PT
FunçãoCondutora de reach (T-3)
LocalizaçãoHelmond
Na Holanda desdeAbril 2024
Mulher em vestuário industrial
Era a única mulher nos empilhadores. Ao fim de três meses já não era história — era só trabalho.— Ana Sousa, condutora de reach Helmond

O que fazia em Portugal e porquê a Holanda?

Trabalhava numa fábrica de roupa em Vila Nova de Famalicão. Quatro anos, atrás das máquinas de costura, por 760 euros líquidos por mês. Vivia com a minha mãe porque não conseguia pagar renda. O meu primo trabalhava desde 2022 em Eindhoven, num CD, e veio no Natal e disse: "Ana, tens de vir ver, isto aqui é mesmo diferente." Pensei: tenho 26 anos, se não vou agora não vou nunca. Três meses depois — Abril de 2024 — estava em Schiphol.

Como encontrou a FlexHero?

Por um grupo do Facebook "Portugueses na Holanda". Tinha escrito a três agências. Duas fizeram qualquer coisa com um formulário e um e-mail geral. A terceira — a FlexHero — ligou-me. Uma senhora chamada Carolina, em português, e demorou o tempo dela. Perguntou-me se preferia trabalhar com pessoas ou mais sozinha — esse tipo de pergunta ninguém tinha feito. Quando disse que preferia máquinas, respondeu: "então não te mando para a produção mas para um CD onde conseguimos formação interna em empilhadores." Era exactamente o que eu queria.

O que mais a surpreendeu no início?

O quão directos são todos. Em Portugal há sempre uma camada entre o que se diz e o que se pensa. Aqui dizem o que pensam, e no início assusta. O meu chefe no segundo dia: "Ana, vais demasiado depressa com esse EPT, vais partir alguma coisa." Sem "talvez devesses ir mais devagarinho" — directamente: faz de outra maneira. No início achei mal-educado, agora acho libertador. Sabes sempre onde estás.

E como única mulher do departamento?

Sim. Tem de se dizer. Nas primeiras semanas estava nervosa todas as manhãs ao pé do relógio de ponto. Nenhuma outra mulher num empilhador, só na linha de embalagem. Alguns colegas olhavam de lado, um — um polaco — disse uma vez algo na sua língua que eu não percebi mas que claramente não era simpático. O meu chefe reparou e no dia seguinte recebi um convite da Filipa da FlexHero para um café. Conversámos. Não para mudar de casa ou de trabalho, simplesmente: "do que precisas de nós?" O colega levou um puxão de orelhas — não por mim, pelo próprio chefe dele. Ao fim de três meses já não era história. Hoje ensino os novos colegas na reach.

E o alojamento?

No primeiro meio ano vivi num apartamento partilhado em Asten — três mulheres, quartos próprios, cozinha e sala partilhadas. Bem, nada a apontar. Mas queria mais privacidade. A FlexHero ajudou-me a ter um estúdio próprio em Helmond — isso pago eu, já não é arrendamento FlexHero, mas ajudaram-me com a câmara para o BSN e para o subsídio de renda. O Mark — um dos donos — tratou pessoalmente da minha inscrição na câmara de Helmond. Não eram obrigados.

O que aprendeu em dois anos?

Prático: reach truck, hoogwerker, algum EPT-LPG. Este ano tirei o VCA pela FlexHero Academy. Pessoal: holandês nível B1 (entendo mais do que falo, mas há-de chegar). E sobretudo: defender-me no terreno. Soa fraco, mas como mulher de 26 anos de uma terra perto do Porto num CD cheio de homens não estás habituada. Agora estou.

Futuro?

Estou inscrita no programa BBL de Operador Logístico no Summa College em Eindhoven — dois anos, um dia por semana de aulas. A FlexHero paga a propina. Depois quero passar a planeadora ou chefe de equipa. O meu namorado — Hugo, também português, também em Helmond — é mecânico. Estamos a poupar para uma casa em Portugal daqui a uns cinco anos. Até lá: viver aqui, trabalhar aqui, crescer aqui.

O que diria a outras mulheres portuguesas que querem vir?

Vem. Mas escolhe uma agência que ouça, não uma que te ponha num apartamento com seis homens porque é mais barato. Pergunta especificamente pelo alojamento antes de voares. E escolhe o sítio onde decoram o teu nome na primeira semana — essa é a diferença entre um trabalho e uma vida.

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